Autorizados pelo banco de Portugal
Intermediário de crédito nº0006530
Esta semana, o assunto mais falado é o crédito à habitação e o aumento da Euribor em todos os prazos, com as taxas a 6 e 12 meses a atingirem máximos de há dois anos.
Mas já nem tudo gira em torno da Euribor.
Para quem tem um crédito à habitação, a palavra Euribor deixou há muito de ser uma coisa que aparece apenas nas notícias ou nos jornais. Passou a fazer parte do orçamento familiar. Quando desce é um alivio, mas quando sobe, sente-se. E sente-se todos os meses.
Talvez por isso os portugueses estejam a mudar de estratégia. A tradicional taxa variável, durante tantos anos a escolha habitual de quem comprava casa, está a perder terreno. Em julho, pela primeira vez, os contratos com taxa mista passaram a representar mais de 48% do crédito à habitação existente, ultrapassando os contratos com taxa variável, que ficaram nos 47%.
E o que é, afinal, uma taxa mista?
É, de certa forma, uma tentativa de encontrar um meio-termo. Durante os primeiros anos, a prestação fica fixa. Depois, passa a variar de acordo com a Euribor. O período inicial mais escolhido é de dois anos, mas pode ser de um, três ou cinco anos. A escolha do prazo deve ser ponderada em função da taxa apresentada pelo banco e, naturalmente, do perfil e de cada um.
Não é uma solução milagrosa, claro.
Ao fim desse período, a Euribor volta a entrar na conversa — e ninguém sabe muito bem o que nos reservará nessa altura. Mas, pelo menos durante algum tempo, há uma coisa que as famílias parecem valorizar cada vez mais: saber quanto vão pagar no mês seguinte.
Quando se assina um crédito para 20, 30 ou até 40 anos, é difícil imaginar tudo o que pode acontecer durante esse período. Mudam os governos, mudam os empregos, mudam os preços, mudam os juros… mas a prestação da casa continua ali, todos os meses, à espera.
Até ao final de 2023, cerca de 78% dos créditos à habitação tinham taxa variável. As taxas mistas não chegavam sequer aos 18%. Entretanto, devido à escalada dos preços após o início da guerra na Ucrânia, o Banco Central Europeu (BCE) subiu as taxas de juro.
Hoje, o cenário é completamente diferente. E, nos novos contratos, a mudança é ainda mais evidente: em julho, 86% dos empréstimos foram contratados com taxa mista.
As famílias estão mais cautelosas e, provavelmente, mais informadas.
Depois de tantos sustos com a subida dos juros, ninguém parece querer entregar completamente o orçamento familiar às oscilações da Euribor. As imprevisibilidades dos tempos que vivemos, com guerras e tudo à mistura, também não ajudam.
A taxa mista oferece, pelo menos, uma espécie de almofada. Não resolve o futuro, mas permite respirar um pouco no presente.
A taxa mista é atrativa e essa segurança, mesmo que curta, tem de ser analisada.
É necessário ler todas as letras do contrato. Sim, eu sei que são imensas e que nem sempre a linguagem é a mais acessível. Mas não vamos comprar uma casa ou assinar um crédito apenas porque as letras grandes dizem que está em promoção.
É aqui que entra uma pergunta importante: o que acontece quando a taxa mista deixa de ser um bom negócio?
Ao assinar um contrato com o banco, por exemplo, com uma taxa mista de 2,65% durante dois anos e um spread negociado de 0,75% para o período seguinte, existem regras que temos de cumprir.
Agora imagine-se que o banco ao lado apresenta uma taxa mista de 2,3%. Ao fim de um ano e meio, estamos a pagar 2,65% e queremos muito aproveitar a nova taxa de 2,3%, afinal já pagamos um ano e meio, só faltam mesmo 6 meses de contrato.
Contudo, no contrato que assinámos está escrito que, se quisermos alterar o contrato durante o período de taxa fixa, teremos de pagar ao banco uma comissão de reembolso antecipado de 2% sobre o valor em dívida, mesmo que só falte um dia para perfazer os 2 anos. Esta comissão pode existir quer queiramos mudar de banco, quer nos saia o Euromilhões e decidamos simplesmente pagar o crédito.
É por isso que a escolha de uma taxa mista — e, sobretudo, do período durante o qual queremos a taxa fixa — é uma decisão importante.
Ficamos mais seguros durante esse período, é verdade. Mas não sabemos que voltas o mercado pode dar entretanto.
Não é uma escolha tipo Euromilhões, mas anda lá muito perto se não houver conhecimento suficiente.
No fundo, não basta olhar para a taxa que aparece em letras grandes. É preciso perceber o contrato, fazer contas e pensar no que pode acontecer depois do período de segurança.
Porque até para escolher se queremos ou não uma taxa mista, é preciso fazer contas à vida…
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