Vamos falar de dinheiro…

By: Ana Cerqueira0 comments

As últimas notícias indicam que a taxa de juro do crédito à habitação subiu pela primeira vez desde 2024, para 3,088%, a prestação da casa que já nos custava a maior parte do salário, vai aumentar.

Depois de meses (ou melhor, mais de um ano) de descidas ou estabilidade, eis que a tendência muda. A Euribor já vinha a dar sinais desde o verão de 2025, e agora começa a bater à nossa carteira. Em causa um aumento é de apenas 0,9 pontos-base, face a Fevereiro (3,079%).

Será assim tão importante preocuparmos com um aumento de 0,09%?

O problema, não está só neste aumento, mas em toda a conjuntura económica envolvente, a tendência deverá agravar-se nos próximos meses, tendo em conta a subida mais acentuada da Euribor nos últimos meses, especialmente depois da ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel no Irão. Sim, porque a guerra dos outros num instante se transforma na nossa guerra, já analisamos na última edição como a guerra podia prejudicar a nossa carteira, esta é só mais uma consequência.

O que significa esse aumento??

O curioso é que, olhando para os números gerais, até parece que está tudo controlado. A prestação média anda nos 402 euros. Mais cinco euros do que no mês anterior, e mais quatro euros que no mês de Março, são aumentos mensais, pouco significativos, quando olhamos para a média… nada de dramático. Quase dá para acreditar que o impacto é mínimo.

Mas se depois olhamos melhor, verificamos que a média nada têm a ver com os valores dos créditos novos.

É que os novos contratos a história, toma outras propoções. Quem assinou crédito nos últimos meses já está a pagar, em média, 700 euros por mês. Sim, Setecentos, leu bem. E aqui já não estamos a falar de trocos esquecidos no bolso do casaco. Estamos a falar de uma fatia séria do rendimento mensal.

E porquê esta diferença?

Simples: as casas estão mais caras, os empréstimos são maiores e, mesmo que os juros não disparem, o peso total cresce. Aliás, o capital médio em dívida já subiu mais de 12 mil euros em pouco mais de um ano. É dinheiro que não desaparece, só muda de forma, transformando-se em décadas de prestações.

O que significa na realidade este aumento de juros?

Segundo os dados do INE, quase metade da prestação (48,8%) é para pagamento de juros. Ou seja, durante muito tempo, não estamos bem a pagar a casa — estamos a pagar o custo de a poder pagar, os restantes 51,2% é que será pagamento do capital em divida, isto claro para valores médios.

Como podemos sobreviver?

No meio disto tudo, há a normalização, simplesmente habituarmo-nos, e aceitamos que 400 euros “até nem é mau” e que 700 “é o novo normal”. Como se o dinheiro tivesse elasticidade infinita, mas o aumento dos salários não acompanhou está subida vertiginosa.

Falar de dinheiro não é só olhar para taxas e médias. É perceber o impacto real na vida das pessoas. É saber que por trás de cada percentagem há escolhas adiadas, planos revistos e alguma ansiedade à mistura.

E para quem não têm crédito, e fez o seu pé-de-meia, o senário pode melhorar.

Mas nem tudo são más notícias. A mesma subida da Euribor que pesa no crédito pode trazer algum alívio — ainda que tímido — para quem tem poupanças. Juros mais altos significam, em teoria, melhores remunerações nos depósitos bancários. Não é propriamente uma fortuna, nem vai mudar vidas de um dia para o outro, mas já não é aquele “dinheiro parado” que rende quase zero. É o outro lado da moeda. Uns pagam mais, outros recebem um pouco melhor e claro o banco nunca saem prejudicados.

Mais uma vez, até a guerra dos outros no faz fazer contas à vida……

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